Lesão do tendão flexor é uma ruptura do tendão responsável por dobrar a ponta do dedo, geralmente causada por um trauma de arrancamento. Se após um acidente esportivo ou uma atividade de força o seu dedo ficou esticado e você não consegue mais dobrá-lo, pode estar diante de uma lesão que exige tratamento cirúrgico urgente.
Essa lesão é conhecida internacionalmente como jersey finger (“dedo de camisa”) porque ocorre classicamente em atletas que agarram a camisa do adversário e sofrem uma hiperextensão forçada do dedo enquanto tentam segurá-la. Mas ela pode acontecer em diversas situações do dia a dia.
Diferente de outras lesões que podem esperar semanas para serem tratadas, a lesão do tendão flexor é uma emergência cirúrgica. Quanto mais o tempo passa, mais o tendão se retrai para dentro da mão, tornando o reparo cada vez mais difícil. Neste artigo, você vai entender o que é o jersey finger, como identificar, por que o tempo é tão importante e como funciona o tratamento.
O que é o jersey finger e como acontece
O jersey finger é a avulsão (arrancamento) do tendão flexor profundo de sua inserção na base da falange distal — o osso da ponta do dedo. Esse tendão é o responsável por dobrar a última articulação do dedo. Quando ele se rompe, o dedo perde a capacidade de flexionar a ponta.
O mecanismo clássico da lesão é a hiperextensão forçada de um dedo que está tentando segurar algo com força. Situações típicas incluem:
- Esportes de contato: agarrar a camisa do adversário em rugby, futebol americano, jiu-jítsu ou judô — o dedo fica preso na camisa enquanto o adversário se afasta, forçando a extensão
- Segurar a guia de um cachorro: o animal puxa bruscamente e o dedo que segura a coleira sofre a hiperextensão
- Atividades de trabalho: puxar cordas, cabos ou materiais pesados com os dedos
- Trauma direto: queda ou pancada que force a extensão do dedo enquanto ele está flexionado
O dedo mais afetado é o anelar (4º dedo), responsável por cerca de 75% dos casos. Isso acontece porque, ao fechar a mão com força, o anelar é o dedo que mais se projeta e fica mais exposto ao trauma.
Por que o jersey finger é uma urgência cirúrgica
Este é o ponto mais importante deste artigo. A lesão do tendão flexor é diferente da maioria das lesões da mão porque o tendão, quando se solta do osso, retrai-se para dentro do dedo e da mão como um elástico que arrebenta.
Essa retração acontece por duas razões: a contração natural do músculo e a perda da conexão com o osso. Quanto mais o tendão retrai, mais difícil fica o reparo cirúrgico, porque ele se afasta de seu ponto de inserção e as estruturas que o nutrem (os vínculos vasculares) podem se romper.
A classificação mais utilizada é a de Leddy e Packer, que define três tipos principais conforme o grau de retração do tendão:
- Tipo I: o tendão retrai até a palma da mão. É o mais grave. A cirurgia deve ser realizada idealmente em até 7 a 10 dias, pois os vínculos vasculares estão rompidos e o tendão pode se deteriorar rapidamente.
- Tipo II: o tendão retrai até a articulação do meio do dedo. O suprimento sanguíneo parcial é mantido. Pode ser reparado em até 3 meses, embora o resultado seja melhor quanto antes a cirurgia for feita.
- Tipo III: o tendão arranca junto um fragmento de osso, que impede a retração. A cirurgia pode ser realizada de forma mais eletiva, mas ainda assim deve ser feita o quanto antes.
Resumo: não existe tratamento conservador (sem cirurgia) eficaz para o jersey finger com ruptura completa. Se o tendão não for reparado cirurgicamente, o paciente perderá permanentemente a capacidade de dobrar a ponta do dedo.
Sintomas: como identificar a lesão
Os sinais do jersey finger costumam aparecer imediatamente após o trauma:
- Incapacidade de dobrar a ponta do dedo — o achado mais importante. Se você segurar os outros dedos esticados e pedir para o dedo lesionado dobrar apenas a ponta, ele não se move.
- Dor e inchaço na face palmar (de baixo) do dedo
- Hematoma ao longo do dedo e às vezes na palma da mão
- Ponto de dor ao pressionar o trajeto do tendão — a localização da dor ajuda a estimar até onde o tendão retraiu
- Dedo mais estendido que os demais quando a mão está em repouso
Atenção: muitas pessoas confundem o jersey finger com uma simples “torção” e só procuram o médico dias ou semanas depois. Isso pode comprometer gravemente o resultado da cirurgia. Se após um trauma o dedo não dobra na ponta, procure um especialista em mão imediatamente.
Jersey finger x dedo em martelo: qual a diferença?
Essas duas lesões são “opostas”:
- Dedo em martelo: ruptura do tendão extensor. A ponta do dedo fica caída e não estica. Geralmente tratado com tala.
- Jersey finger: ruptura do tendão flexor. A ponta do dedo fica esticada e não dobra. Quase sempre precisa de cirurgia.
O dedo em martelo é muito mais comum e frequentemente tratado sem cirurgia. O jersey finger é menos frequente, mas é mais grave porque exige reparo cirúrgico urgente.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico é clínico, baseado no exame físico. O ortopedista especialista em mão testa a capacidade de flexão ativa da articulação da ponta do dedo. A incapacidade de dobrar isoladamente essa articulação confirma a lesão.
Exames complementares ajudam a avaliar a gravidade:
- Radiografia: identifica fraturas por avulsão (quando o tendão arranca um fragmento de osso). É o primeiro exame a ser solicitado.
- Ultrassonografia: pode localizar o tendão retraído e estimar o grau de retração, sendo a modalidade mais custo-efetiva para planejamento pré-operatório.
- Ressonância magnética: quando necessário, fornece mais detalhes sobre a extensão da retração e o estado do tendão.
Tratamento cirúrgico
O reparo cirúrgico é o único tratamento eficaz para o jersey finger com ruptura completa. O procedimento varia conforme o tipo de lesão:
Reparo primário (reinserção do tendão)
Na maioria dos casos agudos (operados precocemente), o cirurgião faz uma incisão na face palmar do dedo, localiza o tendão retraído e o puxa cuidadosamente de volta até sua inserção original na falange distal. O tendão é fixado ao osso utilizando âncoras de sutura ou a técnica de pull-out (sutura transóssea).
A cirurgia exige extremo cuidado com as polias — estruturas que mantêm o tendão encostado no osso durante o movimento — e com os nervos e vasos digitais que correm ao lado do tendão.
Reconstrução em dois estágios
Quando a cirurgia é tardia e o tendão já sofreu retração grave ou degeneração, o reparo direto pode não ser possível. Nesses casos, o tratamento pode envolver dois tempos cirúrgicos: primeiro, a colocação de um espaçador de silicone para preparar o trajeto; e depois, em um segundo tempo, o enxerto de tendão (geralmente retirado do punho) para reconstruir a função.
Recuperação e reabilitação
A recuperação após a cirurgia do tendão flexor é longa e exige comprometimento:
- Primeiras 4 a 6 semanas: o dedo é imobilizado em posição de flexão com uma tala dorsal. O paciente inicia exercícios passivos controlados (movimentos suaves feitos pelo fisioterapeuta) para evitar aderências do tendão.
- 6 a 8 semanas: início dos exercícios ativos leves, com flexão e extensão progressivas.
- 10 a 12 semanas: fortalecimento progressivo e retorno gradual às atividades do dia a dia.
- 4 a 6 meses: liberação para atividades de esforço e esportes.
A fisioterapia especializada em mão é indispensável. O equilíbrio entre proteger o tendão reparado (evitando rupturas) e mobilizá-lo (evitando aderências) é delicado e exige um protocolo rigoroso.
O resultado final depende muito do tempo entre a lesão e a cirurgia, do tipo de retração e da adesão do paciente à reabilitação. Nos reparos precoces e bem reabilitados, a recuperação funcional pode atingir 75 a 90% da função original.
Quando procurar um ortopedista especialista em mão
Se após um trauma o seu dedo ficou esticado e você não consegue dobrá-lo na ponta, procure um ortopedista especialista em mão com urgência. Cada dia de atraso diminui as chances de um reparo bem-sucedido. Não espere para ver se melhora — o tendão flexor não cicatriza sozinho.
O Dr. Renê Hobi é ortopedista especialista em cirurgia da mão, punho e microcirurgia. Atende em Porto União (SC) e União da Vitória (PR), no consultório Hobi Ortopedia — InMedi, na Rua Santos Dumont, 339. Se você sofreu uma lesão no dedo e está com dificuldade para movimentá-lo, agende uma consulta de urgência.
Referências
- Leddy, J.P. & Packer, J.W. — “Avulsion of the Profundus Tendon Insertion in Athletes.” The Journal of Hand Surgery, 1977.
- JOMI — “Jersey Finger Repair.” Journal of Medical Insight, 2025. Disponível em: https://jomi.com/article/297/jersey-finger-repair/pt
- RBCP — “Reinserção de Avulsão Traumática dos Tendões Flexores.” Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, 2017. Disponível em: https://www.rbcp.org.br/details/2229/pt-BR/