Contratura de Dupuytren é uma doença que provoca o enrijecimento e espessamento de um tecido localizado abaixo da pele da palma da mão, chamado fáscia palmar. Com o tempo, esse tecido forma cordões fibrosos que puxam os dedos para dentro, impedindo que a mão se abra completamente.
Se você percebeu um caroço na palma da mão ou notou que um dos seus dedos está começando a dobrar para dentro sem que você consiga esticá-lo, pode estar diante dessa condição. A doença de Dupuytren é benigna, indolor na maioria dos casos e não tem relação com câncer, mas pode causar limitações significativas nas atividades do dia a dia.
A condição afeta principalmente homens acima dos 50 anos e tem forte componente genético. Neste artigo, você vai entender o que causa a contratura de Dupuytren, como ela evolui, quais são os sinais de alerta e quando o tratamento cirúrgico é necessário.
O que é a contratura de Dupuytren e por que acontece
A contratura de Dupuytren é uma doença que atinge a fáscia palmar, um tecido fibroso que fica entre a pele e as estruturas profundas da mão (tendões, nervos e vasos sanguíneos). Em condições normais, essa fáscia é fina e flexível. Na doença de Dupuytren, ela sofre um espessamento anormal e progressivo, formando nódulos e, posteriormente, cordões que se contraem e puxam os dedos para dentro da palma.
A doença recebe o nome do cirurgião francês Baron Guillaume Dupuytren, que a descreveu em detalhes em 1831. Curiosamente, é conhecida como “doença dos vikings”, pois é muito mais comum em populações de origem nórdica e celta.
A causa exata ainda não é totalmente conhecida, mas os fatores de risco mais importantes incluem:
- Genética: é o principal fator. Cerca de 70% dos pacientes têm algum familiar com a mesma condição. A herança é autossômica dominante com penetrância variável
- Sexo masculino: homens são até 10 vezes mais afetados que mulheres
- Idade acima de 50 anos: a doença se torna mais frequente e grave com o envelhecimento
- Diabetes mellitus: pacientes diabéticos têm maior predisposição
- Alcoolismo e tabagismo: ambos estão associados a maior risco e progressão mais rápida
- Epilepsia e uso de anticonvulsivantes: também são fatores de risco reconhecidos
- Origem étnica: populações do norte da Europa (escandinavos, britânicos, irlandeses) são as mais acometidas
Os dedos mais afetados são o anelar (4º dedo) e o mínimo (5º dedo), embora qualquer dedo possa ser atingido. A doença pode afetar uma ou ambas as mãos e tende a ser progressiva ao longo dos anos.
Como a doença de Dupuytren evolui: os estágios
A contratura de Dupuytren costuma progredir de forma lenta e gradual, passando por estágios bem definidos:
Fase inicial — nódulos
O primeiro sinal é o aparecimento de um nódulo firme na palma da mão, geralmente na base do anelar ou do mínimo. Esse nódulo pode ser confundido com um calo ou cisto, e nessa fase o dedo ainda se movimenta normalmente. Alguns pacientes sentem leve desconforto ao apoiar a palma da mão em superfícies duras.
Fase intermediária — cordões
Com o tempo, o nódulo se transforma em um cordão fibroso palpável que vai da palma da mão em direção ao dedo. Esse cordão começa a encurtar e a tracionar o dedo para dentro, limitando gradualmente a extensão.
Fase avançada — contratura
O dedo fica permanentemente dobrado em direção à palma, e o paciente não consegue esticá-lo por conta própria. Nos casos mais graves, o dedo pode ficar completamente fechado sobre a palma, dificultando tarefas simples como enfiar a mão no bolso, calçar luvas, lavar o rosto ou apertar a mão de alguém.
Importante: a velocidade de progressão é imprevisível. Alguns pacientes permanecem na fase de nódulo por anos sem evolução. Outros progridem rapidamente para contratura em poucos meses. Doença em idade jovem, histórico familiar forte e presença de nódulos em outras partes do corpo (como na planta dos pés) são sinais de uma forma mais agressiva.
Sintomas e sinais de alerta
Os sinais da contratura de Dupuytren são bastante característicos:
- Nódulo ou caroço na palma da mão, firme e aderente à pele
- Cordão palpável que vai da palma em direção ao dedo
- Repuxamento da pele da palma, criando covinhas ou depressões
- Dedo que não estica completamente, mesmo com esforço
- Dificuldade para abrir a mão e apoiar a palma em superfícies planas
- Limitação para atividades como lavar o rosto, calçar luvas, digitar ou apertar a mão
Um teste simples: apoie a mão espalmada sobre uma mesa. Se todos os dedos e a palma encostam na superfície, está normal. Se algum dedo fica levantado ou a palma não encosta completamente, pode haver contratura — é o chamado “teste da mesa” (tabletop test).
Na maioria dos pacientes, a doença é indolor. A dor, quando presente, costuma ocorrer na fase inicial (nódulo) e tende a desaparecer com a evolução.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico da contratura de Dupuytren é essencialmente clínico. O ortopedista especialista em mão identifica a doença pelo exame físico, avaliando os nódulos, os cordões e o grau de contratura de cada dedo.
Geralmente não são necessários exames de imagem para confirmar o diagnóstico. Eventualmente, a ultrassonografia pode ser útil para avaliar o espessamento da fáscia e diferenciar de outras condições, como cisto sinovial, tumor de células gigantes ou dedo em gatilho.
A medição do grau de contratura (em graus de flexão) é fundamental para acompanhar a evolução e definir o momento do tratamento cirúrgico.
Tratamento da contratura de Dupuytren
A doença de Dupuytren não tem cura definitiva — ela pode recidivar mesmo após o tratamento. O objetivo é corrigir a contratura e recuperar a função da mão. A escolha do tratamento depende do estágio da doença e da limitação funcional.
Quando apenas observar
Na fase de nódulo, sem contratura dos dedos, a conduta mais adequada é o acompanhamento periódico. Nessa fase, não há indicação de cirurgia. O paciente deve ser reavaliado a cada 6 a 12 meses para monitorar a progressão.
Fasciotomia percutânea com agulha
Procedimento minimamente invasivo realizado no consultório, em que o médico utiliza uma agulha para romper os cordões fibrosos através da pele, sem necessidade de incisão. É indicada para contraturas leves a moderadas. A recuperação é rápida, mas a taxa de recidiva é mais alta comparada à cirurgia aberta.
Fasciectomia (cirurgia)
É o tratamento com melhores resultados a longo prazo e menor taxa de recidiva. Consiste na remoção cirúrgica do tecido doente (fáscia espessada, nódulos e cordões). É indicada quando a contratura atinge 30 graus ou mais na articulação entre a palma e o dedo, ou quando há limitação funcional significativa.
A cirurgia é feita com anestesia regional, em regime ambulatorial. O pós-operatório exige fisioterapia e uso de tala noturna por algumas semanas. A reabilitação é essencial para manter o ganho de extensão obtido na cirurgia.
Em casos graves, com contratura prolongada e rigidez articular, o cirurgião pode precisar recorrer a técnicas complementares como enxerto de pele ou liberações articulares adicionais.
O que esperar após o tratamento
A recuperação após a fasciectomia inclui:
- Primeiras semanas: curativo, controle do inchaço e início da fisioterapia
- 4 a 6 semanas: ganho progressivo de movimento com exercícios e uso de tala noturna
- 3 meses: maioria dos pacientes retorna às atividades normais
A recidiva é possível em qualquer técnica. A fasciectomia tem a menor taxa (cerca de 20 a 30% em 5 anos), enquanto a fasciotomia por agulha pode ter recidiva em até 60 a 70% dos casos. Pacientes jovens, com doença bilateral e histórico familiar forte têm maior risco de recorrência.
Quando procurar um ortopedista especialista em mão
Se você percebeu um nódulo na palma da mão ou um dedo que está começando a fechar, procure um especialista. Embora a doença seja de evolução lenta, o acompanhamento precoce permite identificar o melhor momento para intervir e evitar que a contratura se torne grave e de difícil correção.
O Dr. Renê Hobi é ortopedista especialista em cirurgia da mão e punho. Atende em Porto União (SC) e União da Vitória (PR), no consultório Hobi Ortopedia — InMedi, na Rua Santos Dumont, 339. Agende sua consulta para avaliação e acompanhamento.
Referências
- Manual MSD — Contratura de Dupuytren (Versão para Profissionais). Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/dist%C3%BArbios-dos-tecidos-conjuntivo-e-musculoesquel%C3%A9tico/dist%C3%BArbios-das-m%C3%A3os/contratura-de-dupuytren
- Hurst, L.C. et al. — “Injectable Collagenase Clostridium Histolyticum for Dupuytren’s Contracture.” New England Journal of Medicine, 2009.
- Green’s Operative Hand Surgery, 8th Edition — Dupuytren’s Disease