A cirurgia da mão é uma das especialidades médicas mais singulares que existem — e poucos sabem que ela nasceu da urgência de uma guerra. No dia 17 de junho, comemora-se o Dia do Cirurgião de Mão, data que marca a fundação da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão em 1959. É uma boa oportunidade para contar como surgiu essa especialidade que, todos os dias, devolve função e qualidade de vida a milhares de pessoas.
Diferente de quase todas as outras áreas da medicina, a cirurgia da mão não se organiza em torno de um único tipo de tecido ou doença, mas em torno de uma região do corpo de complexidade extraordinária. Em poucos centímetros, a mão concentra ossos, articulações, tendões, nervos, artérias, veias e pele — todos precisando funcionar em perfeita harmonia para que possamos escrever, trabalhar, abraçar e sentir o mundo.
Neste artigo, você vai conhecer a fascinante origem da cirurgia da mão, entender por que ela exige um cirurgião tão diferenciado e descobrir o que faz esse especialista no dia a dia.
Como a 2ª Guerra Mundial deu origem à cirurgia da mão
A história começa de forma improvável: com o encontro de três americanos durante a Segunda Guerra Mundial — um presidente, um general e um cirurgião apaixonado por caça aos patos.
O presidente era Franklin Delano Roosevelt. Aos 39 anos, ele havia sido vítima da poliomielite, que o deixou paraplégico. Durante os anos de reabilitação, Roosevelt aprendeu muito sobre ortopedia e conheceu profissionais dessa área — entre eles, Norman Kirk, um cirurgião que viria a ser nomeado chefe do Serviço Médico das Forças Armadas dos Estados Unidos.
No início dos anos 1940, com soldados voltando do front da Europa, África e Ásia com lesões devastadoras nos membros superiores, o sistema de saúde militar enfrentava um problema sem solução. As feridas de guerra atingiam ao mesmo tempo a pele, os músculos, os tendões, os ossos, as articulações, os nervos e os vasos sanguíneos da mão. Tratar tudo isso exigia reunir um ortopedista, um cirurgião plástico, um cirurgião vascular e um neurocirurgião — algo praticamente impossível de coordenar em um único ato cirúrgico.
Foi quando Norman Kirk conheceu, em São Francisco, um cirurgião chamado Sterling Bunnell.
Sterling Bunnell: o “pai da cirurgia da mão”

Sterling Bunnell defendia uma ideia revolucionária para a época: deveria existir um “cirurgião regional” — um profissional capaz de, sozinho, reconstruir todas as estruturas do membro superior.
Em vez de dividir a mão entre várias especialidades, um único cirurgião dominaria a ortopedia, a cirurgia plástica, a vascular e a neurocirurgia aplicadas àquela região.
Em 1944, a convite do presidente Roosevelt e do general Kirk, Bunnell aceitou um desafio extraordinário. Aos 62 anos de idade, ele abandonou sua clínica particular e passou a viajar pelos Estados Unidos para tratar os soldados feridos, que eram tão numerosos que ficaram conhecidos como a “legião de aleijados”.
Bunnell criou nove “hand centers” (centros de tratamento da mão) espalhados pelo país. Até o fim de 1945, cerca de 10 mil pacientes já haviam sido tratados nesses centros. Mais do que tratar, Bunnell formou uma geração de jovens cirurgiões — nomes como Littler, Fowler e Barsky — que levariam a especialidade adiante.
O sucesso foi tão grande que, em 1946, foi fundada a Sociedade Americana de Cirurgia da Mão. Estava oficialmente nascida uma nova especialidade médica.
A chegada da cirurgia da mão ao Brasil
No Brasil, a especialidade chegou pelas mãos de pioneiros corajosos. Um deles foi Lauro de Abreu, ortopedista que, em 1944, conseguiu uma bolsa do Conselho Britânico de Medicina para se aprofundar no tratamento das lesões da mão.
A viagem em si já é uma história de guerra: como o Brasil participava da Segunda Guerra ao lado dos Aliados, Abreu foi orientado a não embarcar em portos brasileiros, pois a costa estava cercada por submarinos alemães e italianos. Ele partiu pela Argentina e, após 28 dias de viagem em um navio britânico, desembarcou em Liverpool, na Inglaterra, onde estagiou com alguns dos maiores nomes da época.
De volta ao Brasil, esses pioneiros enfrentaram resistência. A cirurgia da mão não era nem ortopedia, nem cirurgia plástica — era algo novo. Como dizia Lauro de Abreu: a especialidade tem características próprias, é a cirurgia da mão e dos membros superiores.
Em 17 de junho de 1959, no Rio de Janeiro, 57 médicos assinaram a ata de fundação da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão (SBCM). Por isso, essa data é celebrada como o Dia do Cirurgião de Mão. Em 1983, a cirurgia da mão foi finalmente reconhecida como especialidade médica oficial no Brasil.
Por que a cirurgia da mão é uma especialidade única
A genialidade da visão de Bunnell continua válida até hoje. A cirurgia da mão é, talvez, a única especialidade definida não por um órgão ou sistema, mas por uma região anatômica que exige domínio de múltiplas disciplinas ao mesmo tempo.
Para tratar uma única lesão complexa da mão, o cirurgião pode precisar:
- Fixar ossos fraturados (conhecimento de ortopedia)
- Reconstruir a pele e os tecidos moles (conhecimento de cirurgia plástica)
- Reconectar artérias e veias sob microscópio (conhecimento de cirurgia vascular e microcirurgia)
- Reparar nervos para devolver a sensibilidade e o movimento (conhecimento de neurocirurgia periférica)
- Suturar tendões para restaurar a função de flexão e extensão dos dedos
Tudo isso em estruturas que, em muitos casos, têm menos de um milímetro de diâmetro. Não é à toa que a formação de um cirurgião de mão é uma das mais longas da medicina: além dos seis anos de faculdade, são necessários de 5 a 7 anos de especialização, incluindo residência em ortopedia ou cirurgia plástica e, depois, dois anos de residência específica em cirurgia da mão.
O que faz o cirurgião de mão hoje
Oitenta anos depois de Bunnell, o cirurgião de mão moderno trata uma enorme variedade de condições — muitas delas já abordadas aqui no blog. O trabalho se divide em dois grandes grupos:
Condições não traumáticas (as mais comuns no consultório): síndrome do túnel do carpo, dedo em gatilho, tendinite de De Quervain, cistos sinoviais, rizartrose, contratura de Dupuytren e artrose dos dedos, entre outras. São problemas que surgem com o uso da mão ao longo da vida e que causam dor, dormência ou limitação de movimento.
Condições traumáticas: fraturas da mão, do punho e do antebraço, lesões de tendões e ligamentos, lesões de nervos periféricos e, nos casos mais extremos, os reimplantes de dedos e membros amputados — a expressão máxima da visão de Bunnell, em que um único cirurgião reconstrói osso, vaso, nervo, tendão e pele em uma só cirurgia.
A especialidade também acompanha a evolução tecnológica, incorporando recursos como a cirurgia endoscópica, a artroscopia de punho e, mais recentemente, a impressão 3D para planejamento de cirurgias complexas.
Uma especialidade que devolve autonomia
Mais do que tratar doenças, a cirurgia da mão devolve algo essencial: a autonomia. As mãos são nossa principal ferramenta de interação com o mundo — trabalhamos, nos comunicamos, criamos e sentimos através delas. Recuperar a função de uma mão é, muitas vezes, recuperar a capacidade de uma pessoa de trabalhar, de se cuidar e de viver com independência.
Essa é a herança que começou no meio de uma guerra, com a visão de um cirurgião de 62 anos que acreditou que valia a pena dominar tudo o que fosse preciso para salvar uma mão.
Se você convive com dor, dormência, perda de força ou qualquer dificuldade nas mãos e nos punhos, procure um especialista em cirurgia da mão. O diagnóstico correto e o tratamento adequado podem fazer toda a diferença na sua qualidade de vida.
O Dr. Renê Hobi é ortopedista especialista em cirurgia da mão, punho e microcirurgia. Atende em Porto União (SC) e União da Vitória (PR), no consultório Hobi Ortopedia — InMedi, na Rua Santos Dumont, 339. Agende sua consulta para uma avaliação especializada.
Referências
- Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão (SBCM) — História da Especialidade. Disponível em: https://www.cirurgiadamao.org.br/historia.php
- Revista Brasileira de Ortopedia — “Aspectos Históricos da Cirurgia da Mão no Brasil.” Disponível em: http://rbo.org.br/detalhes/2958/pt-BR
- Lech, O. & Baldy dos Reis, F. — “50 Anos de Cirurgia da Mão no Brasil: 1959-2009.” Palavra Impressa, 2009.